segunda-feira, 26 de abril de 2010

O dia 26/4/1979

Foi uma semana pra marcar a vida.

Salim tinha ordenado exames diários de estriol, em São Paulo, exames que mediam o bem-estar do nenê que esperávamos, com tanto amor. Todas as noites, dezenove horas, se tanto, saíamos de Jacareí e rumávamos pra São Paulo. A Dutra sempre se manteve amiga e, no prazo de uma hora, já estávamos em algum restaurante, antes de passarmos a noite no apê da Praça 14 Bis. Cedinho, éramos os primeiros a chegar ao Laboratório Delboni-Santos, na Av. Brasil, esquina com a Nove de Julho. Em geral, nem funcionários tinham chegado. Eram sempre os próprios médicos que nos atendiam e faziam a coleta de sangue.

Após, Dutra novamente e trabalhar. Osvaldo, na Inquibrás. Eu, no Verdinho. Era uma quarta-feira e eu sonhava poder ficar e dormir em casa, para assistir a um documentário sobre os grandes jogadores de futebol do passado, que a Globo anunciava a cada intervalo da programação.

Dengosinha e mimada, telefonei ao Salim, se podia deixar de fazer o exame na quinta-feira; estava tão cansaaaaadiiiinha... Silêncio na linha. Ah, balancei meu médico. Ainda silêncio. De repente, trovejou, com aquela voz forte e metálica: “ Não tenho nada com seu cansaço. Tenho com a criança. Faça o exame amanhã."

Engoli os sapos todos, e, à noite, novamente Dutra.

Combináramos Osvaldo e eu de vigiar os gastos e evitar ir a restaurantes mais sofisticados. Assim ele parou em frente a uma cantina, onde, pra meu espanto, dois funcionários se apressaram a abrir as portas do carro: um do meu lado e, outro, do dele. Pelo visto, a contenção de gastos fora para o brejo.

Comemos, bebemos vinho tinto – ah, meu médico era totalmente diferente dos de hoje, pois aconselhara para minha dieta vinho tinto, cuja provisão o Osvaldo fizera, com o máximo gosto. E minha dieta era dieta, mesmo. Nada de pães e açúcares durante toda a gravidez.

Dormimos no apezinho e, de manhã, me submeti ao exame de sangue, conforme o previsto. Depois,, Jacareí, com nossos afazeres habituais. Osvaldo na Inquibrás. Eu, nas aulas. No dia seguinte, entraria no nono mês. E, a partir daí, não poderia dirigir. Às cinco horas, telefonamos para o Laboratório: essa era a rotina. Depois comunicar ao Salim o resultado. Quando ouvi o índice, tremi. Fiquei sem coragem de falar com meu exigente médico. Osvaldo se encarregou da tarefa: sabem como é meu marido: o pai da calma e da diplomacia.

-- Como vai, Salim? Está pronto para o casamento? (O Salim fora convidado para uma festa de casamento, que seria às dezenove horas.) Que bom! Boa festa para vocês. Ah, o exame? Pois é! Deu 4.

De onde eu estava, ouvi os trovões, raios e pedradas. A malinha estava pronta. Dutra novamente. Coração preocupado. Eu, mão na barriga, no esporte a que me acostumara: contar as mexidas do bebê.

1, 2 ... 5 ... 21 ... 82...

Chegamos ao Hospital Santa Luzia, da Sta.Casa de SP. Uma comissão de frente nos aguardava. Salim, todo bonitão, de terno e colete, e seus assistentes, nada menos que professores da Paulista, convocados às pressas, porque os residentes estavam em greve. O Salim mal olhou para o Osvaldo e foi coordenando: “Vá fazer a internação da Sônia.” Pegou-me pelo braço e nem sei como, já estava na maca para ser examinada. Perguntou, ansioso. “O bebê mexeu, durante a viagem?” Disse que sim. “ Quantas vezes?” Respondi o número que pode parecer absurdo:”168. “ Ele pôs a mão em minha barriga e meu bebê, como sempre colaborando, deu mais uma mexidinha. Salim: “ Graças a Deus” . Daí para os preparativos de urgência e cesariana: “Dêem um calmante pra ela” Lógico, era o mandão do Salim. “ Não quero dormir”, reagi. E ele, fazendo troça:”Ah, ela quer conversar com o maridinho...” Todos riram, até eu.

O telefone tocou: quem poderia imaginar que era meu irmão, contatando o Salim, pra saber de nós? Parece inadmissível, mas o Salim atendeu ao telefone na sala de cirurgia. Quem conheceu o Nassib sabe como ele era persuasivo.

Às 21.45h minha flor veio ao mundo. Era 26 de abril de 1979, uma quinta-feira. Osvaldo ligou para o Nassib e anunciou: “ A Karen nasceu” Era uma homenagem ao meu irmão, que achava lindo esse nome.

O pediatra, que há vinte anos não dava plantão, estava encantado e ma trouxe no colo. Vi um pezinho rosa de cetim e beijei-o com adoração. O bebê parecia um sonho pintado de rosa: pele, unhas, rostinho mais lindo. E olhos azuis. Se eu fosse fraquinha e tão romântica como os livros que amei ler, era a hora certa de desmaiar. Mas, lógico, preferi ficar naquele sonho real, em cores suaves e inesquecíveis.


- Mamãe -

3 comentários:

Helena disse...

Que texto mais lindo, meus olhos estão transbordando.
Parabéns mais uma vez.
Te amo muito

Fernanda disse...

Sonoca e seu dom de emocionar com as palavras...

Que texto lindo!! Conforme eu lia, um cenário se abria à minha frente. Fui entrando na história como se eu estivesse lembrando algo que vivi e não imaginando, apenas.

Parabéns hj e sempre, minha amada!

Que o azul dos seus olhos invadam seus dias e os tornem mais límpidos, puros e com muito amor.

Que a felicidade do nascimento comemorada em 26/04/79, seja eterna.

E que Deus continue abençoando e iluminando sempre seus passos. Que você seja sempre muito FELIZ, na mais profunda intensidade, aquela que sabemos bem quando chegamos no máximo do nosso descabelo.

FELIZ ANIVERSÁRIO !!!!!!!!!

Love youuuuuuuuuuuuu!!!!


Bjobjobjooooooooo

July Malta disse...

Acabei de chegar da comemoração de 26/04/2010!! 31 anos depois eu leio essa história e me emociono loucamente! Com o carinho, o amor e a doçura entre mãe, pai e filha!
Sonoca, obrigada! Pelo lindo texto, pela filha linda!
Ka, parabéns!! Hoje e sempre!!
Beijos
Ju